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April 07, 2007 07:57 AM PDT
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Irajá Menezes, Newton Carneiro & a Banda Q Animou o Baile da Ilha Fiscal - 1989 - 1994

Sá Marica Parteira
April 07, 2007 07:52 AM PDT
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Composição de Zé Dantas

Touradas em Madrid
April 07, 2007 07:36 AM PDT
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Composição de João de Barro e Alberto Ribeiro

Língua
April 07, 2007 07:15 AM PDT
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Composição de Caetano Veloso

Passagens
April 07, 2007 06:42 AM PDT
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Composição de Newton Carneiro e Irajá Menezes para o vídeo "Cláudio Tozzi - encontro com o artista" do Instituto Cultural Itaú - 1993.

Kátia Flávia, a Godiva do Irajá / Come Get It
April 07, 2007 06:28 AM PDT
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Composição de Fausto Fawcett e Carlos Laufer / Miles Davis

Chinesa Video Maker
April 07, 2007 06:09 AM PDT
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Composição de Fausto Fawcett e Carlos Laufer

Balada Para Un Loco
April 07, 2007 05:57 AM PDT
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Composição de Astor Piazzolla e Horácio Ferrer

Chovendo na Roseira
April 07, 2007 05:36 AM PDT
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Composição de Antônio Carlos Jobim

Assim Caminha a Humanidade
April 07, 2007 05:15 AM PDT
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Composição ( ? ) de Stravinsky - Orff - Beethoven - Weill - Jobim - Carneiro - Coelho - Pinto - Pessoa - Moraes - Veríssimo.

Je Suis Terrible
April 07, 2007 04:49 AM PDT
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Composição de Roberto e Erasmo Carlos; versão de Sérgio Coelho.

Dove é il amore?
April 07, 2007 04:22 AM PDT

Comentário feito por Fran Papaterra ao show Irajá Menezes, Newton Carneiro e A Banda Q Animou o Baile da Ilha Fiscal: - "não se fala de amor nas letras".

Pensei, pensei, pensei...

Esse trabalho buscou intensamente um núcleo que o organizasse. Já a partir da idéia do Língua - show solo que eu fazia em 88/89 e que serviu de base para a criação da dupla - e sua linha mestra, o canto falado, a busca de unidade foi constante.

O canto falado deixou de ser um tema e passou pro estilo, isso foi uma das primeiras coisas: já na 1ª versão, em meados de 89, canto falado não era critério para escolher música, era um ingrediente, assim como os arranjos politimbrísticos. Daí uma base, uma identidade de estilo: canto falado + arranjos coloridos, com muitos timbres ( variação de timbres ).

A escolha das músicas foi livre: o que dava vontade. O contato com o teatro trouxe a idéia de unidade: roteiro. Então, pusemos em ordem. Isso depois daquilo. Clima indo pra clima e assim por diante.

O Sérgio Coelho, nosso diretor, apressadamente, fez aquela separação - artificial - campo/cidade, bem, não resultou muito, mas foi um jeito. E ficou assim.

- O teatro precisa se localizar no espaço. Okey, bem pensado. Do ponto de vista do teatro. O Pariz ( diretor ) pensou igual pro Sebastian ( bailarino ), ou eu pensei, na verdade.

Acontece que teatro não é o que a gente faz. A gente faz letra de música. O espaço da canção está nela mesma. Na música. E na imaginação de quem ouve.

E, sendo assim, pensei, pensei e fui ver que linha de unidade que tem.

LINHAS

Tem uma, a dos personagens: Limeira, Malaquias, Capitão Barbino, Sá Marica, Finito, a espanhola da Catalunha, Kátia Flávia, a Chinesa, o rapaz chupado, as Neo Madonas, o Loco, a portenha, o homem das cavernas, Vito Manue, a americana, o Terrible, Carlota a cozinheira morta, ou seja, tem personagem em todas as músicas. Não tem só o eu do poeta.
- Mesmo a música instrumental remete a personagens: Ordinária, mas Bonitinha, Coroação ( alguém é coroado quando há uma coroação ), Gênese ( alguém ou algo nasce ), isso pra não falar do fato das 3 composições serem "conversas" entre temas - Coroação, um papo entre o instrumentista e o gravador, num jogo de espelhos e as outras, duas "sonatas", tema A, tema B e desenvolvimento, a idéia claríssima de conflito entre duas proposições.

As letras trazem os pontos de vista de vários personagens. Pronto: Teatro! Não! Poesia também pode ter personagem. Poesia épica. Narrativa.

- João Cabral de Mello Neto disse: a poesia lírica migrou para a canção popular. O poeta deve se ocupar de outros assuntos. Aí eu achei a resposta: não é que não tem amor nas canções. É que a gente não faz exatamente canção.

FORMA E CONTEÚDO

Eu gosto da idéia de que tudo tem forma. O que não tem forma está fora do mundo concreto. Não existe. É morto. Talvez até no sentido fantasmático, espiritual, esotérico. Mas energia transformada em matéria toma forma.

Conteúdo é abstrato. Há que haver forma para enviar, veicular o conteúdo. E, nitidamente, o trabalho é conteudista. No sentido que há uma corrente de idéias permanentemente ligada. Mensagens faladas, explicitadas no jeito falado de cantá-las. Direto. Objetivo.

E a unidade Forma/Conteúdo é outra linha.

Quando a Carmem e as Touradas se encontram, quando o Miles Davis e o Fausto Fawcett se encaixam, quando a Balada e o Adios Nonino vão pro mesmo arranjo, quando Assim Caminha a Humanidade refaz o caminho passo a passo dos estilos eruditos pelos séculos, todos invadidos pela Garota de Ipanema ( aqui uma pausa/aparte: o nome Assim Caminha a Humanidade vem justamente explicitar a idéia, o conceito de narratividade. O Big Bang, o homem primevo, a ameba, o Homem, a Mulher, a passagem dos séculos e a garota de Ipanema, que é um personagem que anda, que passa - e nem olha pra mim - o movimento é tudo que a garota tem pra dar, ela não para nunca, o tempo da garota de Ipanema não tem fim ), enfim, quando todas essas linhas se cruzam vem a linha justamente das linhas que se cruzam. Os encontros.

DOVE É IL AMORE?

O amor tá aí. Tudo, em todas as músicas é encontro/relação. Relações quaisquer? Não. Relação homem/mulher.

Acontece que o poeta tem que se ocupar com outras coisas. A conseqüência disso é: esse conteúdo busca uma forma não canção. Está claramente delineada uma recusa à canção. Os formatos são mais longos, média de 7 minutos por música, recusa aos estribilhos, aos recursos de memorização para o público. A reiteração é negada. Textos - prosa: desenrolar, desenrolar, os caminhos da atenção levados pelas narrativas. Exigência de concentração por parte da platéia. O show estabelece um clima de permanente novidade. O grau de dispersão da platéia é comprovadamente pequeno. Nós jogamos com cartas marcadas. A gente agarra o sujeito pelo colarinho - e não solta mais.

- Nesse sentido a fita perde muito, pois o ambiente em que ela é ouvida muda estruturalmente, daí ela resultar incômoda. Exigir atenção de alguém na hora de ouvir música em casa é impossível em nossos dias.

Fica posta aí mais outra linha: a linha da suspensão, o fio que transpassa todo o trabalho. É aquele fio que dá choque, que não dá descanso, sempre esticado, o fio desencapado da atenção.

ESTRANHAMENTO

Com certeza essa é a causa da obsolescência do produto. Estamos partindo de uma premissa de atenção da platéia que cada vez existe menos. Exigimos da platéia silêncio e concentração, ao invés de nos adaptarmos às condições ambientais da dispersão que a música de entretenimento impôs à percepção artística.

Defeito: por que não enfrentar a mesma questão da atenção em alguma coisa relaxada? Por que manter sempre a atenção pelo choque? Um dos motivos é o medo. O humor e a agressividade são dois materiais que eu conheço e domino, enquanto linguagem, bem. A beleza, não. É claro que isso é uma das faces dessas crônicas de amor louco. Outra é uma recusa à beleza agradável, ao terreno asfaltado que o João Cabral fala. Terreno pedregoso deve fazer o pé desequilibrar. E ainda uma vontade épica. Enorme. Grandiloqüente. Vontade de potência. Exagero. Eu me sinto melhor quando canto maior. De delicada basta a minha saúde. Fantasias de poder. Je tien la force.

Com certeza este é o aspecto formal mais coerente com o conteúdo. Não há descanso: o movimento é permanente e não se resolve. Tudo é suspenso. O virtuosismo da minha memória - a enxurrada de palavras - "como você consegue lembrar tudo?" - dá aflição. Os acordes nunca são tríades, os instrumentos são sempre simultâneos, sempre tem mais de uma coisa rolando ao mesmo tempo. Esta forma traduz o conteúdo das relações amorosas que estão em todas as músicas - Mantém sempre teso o arco da promessa. O amor é um fio esticado. Amar é muito perigoso. O amor não dá sossego. Isso não implica numa visão pessimista ou, quanto mais, dor-de-cotovelo, nada disso, o humor é uma das linhas mais explícitas, perceptíveis, no trabalho. Assim Caminha a Humanidade é engraçadíssimo. Mas a definição já está dada: "o amor não é mais do que o ato da gente ficar no ar antes de mergulhar." Amor / Humores.

ENTRE TAPAS E BEIJOS

A própria Pedra do Reino acaba aos tapas. Na Kátia Flávia tem sexo, ela mata o marido e fala de sua calcinha pelo rádio. Strip oral. Strip eletrônico. A Chinesa, afinal, chupa o rapaz. A boate pornô é um lugar para encontros. Balada Para un Loco, Vito Manue, Je Suis Terrible, tudo fala de homem e mulher. Sendo que os relacionamentos têm a tendência a não dar certo, ou serem difíceis ou apenas não relaxarem. A poesia lírica certamente se ocuparia disso por outro procedimento - canções costumam acabar na tônica. Acontece que o poeta tem que se ocupar com outras coisas e eu tenho me ocupado com contos, romances, histórias, cinema. Nestes veículos, o amor lírico é que gera estranhamento. Quem agüenta Sleepless in Seattle? Em Schindler, Short Cuts, Capitão Tornado, a vida é mais que namoros e declarações de amor. Embora amor e sexualidade sejam a base dos desejos dos personagens de filmes, como no Woody Allen, desejo, sexualidade, isso tem tantos vieses além do lirismo!

Suspenso. Sensação de tensão e flutuação simultaneamente: Sá Marica é uma descrição de parto, a expectativa levada ao paroxismo. O Limeira explica a situação: fala da relação ( o fio ligado ) entre o palco e a platéia. Propondo-se a ser uma apresentação ele se comunica através das formas, já que a sintaxe foi subvertida. Cantando rápido, embutindo sentido nas palavras sem sentido a comunicação se estabelece - não consigo deixar de sorrir e achar que é uma bela idéia, alguém se apresentar formalmente numa língua incompreensível.

Mas uma canção não tem espaço para caber tanta coisa. Já se tentou fazer caber tudo nas canções. Eu tenho tentado formatar diferente. Tomara que não seja pouco.

PASSAGENS

Tensionando e flutuando. Agridoce. As Passagens são a ilustração que faltava: pedaços de música que repetem exaustivamente um tema que nunca aparece com a mesma cara. O mesmo arpejo apresentado de meia-dúzia de maneiras diferentes. Os elementos tratados de maneira polifônica, simultânea, trazem a questão do encontro tenso: as formas rítmicas, sempre conseguindo manter uma autonomia, acabam por se influenciar. O beat de um relógio ( o tic-tac ) em contraste com uma flauta "rítmica", em contraste com um instrumento balinês ( javanês? ). Os beats se influenciam, se encontram e se modificam. Criam aquele momento flutuante em que a percepção precisa se decidir por um ou por outro, para logo em seguida refazer esse ponto de vista.

Por que fazer e desfazer pontos de vista? Porque parto da premissa que o ouvinte me ouve. Numa experiência parecida com ler ou ver um filme. Nunca como música de fundo, portanto o discurso visa ser entendido. A fluência dele, porém, é truncada. Ou, no mínimo, exige uma atenção para a narrativa. Começo, meio e fim. Contrário à circularidade. Não se pega o bonde de qualquer ponto.
No entanto, música é música e o ouvinte sempre vai se engajar nos ritmos e melodias. É do código. Ouvir e poder prever o que vem adiante para acompanhar, pulsar junto. Inda mais que isso é música popular, aquela que traz a tradição participativa do ouvinte.
O tic-tac do relógio, então, é, naturalmente, uma proposta de ritmo. Eu me encaixo nele. A flauta entra e questiona o tempo forte. O tic é tempo forte ou fraco? Eu estalo meu dedo quando? Isto é a junção das duas proposições. Música popular pede adesão. Música "experimental" exige uma chave para a compreensão. Se as Passagens são quase 100% rítmicas ( a melodia é explorada de forma rítmica também ), a "chave" fica por conta dos tempos fortes, fracos, acentos, etc. ou seja, a adesão é questionada, fazer e refazer os pontos de entrada: o tac é tempo ou contratempo? Uma hora é tempo, outra é contratempo.

MORTE

Também tem a morte. Morre gente à beça nesse show. A Chinesa morre. A portenha fica louca. O Finito, tuberculoso, enfrenta um touro, que morre. A humanidade que caminha se tortura o tempo inteiro. O homem acaba sozinho, a Carlota morre e o mundo acaba. Destinos trágicos. Poesia lírica? Nem pensar.

CONCLUSÃO

Coisas que se penetram e confundem. Coisas que conflitam. O momento suspenso em que as coisas não estão resolvidas. A insistência em pôr tudo em movimento. A busca. O caminhar. Antes épico do que lírico. Por amor de ir buscar alguma coisa.

O fio ligado, passando corrente. No show, no fim o mundo acaba, mas quem conta a história, curiosamente, ainda não morreu ( e nada indica que isso venha a acontecer ). Não se pode nem morrer sossegado nessa merda.

São Paulo 1994